Em sua Tese de Conclusão de Curso, Wilheim Rodrigues mostrou
imagens consideradas “pornográficas” pela rede social. Para ele, existe uma
motivação política nessas censuras
Por Isadora Otoni - em Revista Fórum
Quando um amigo foi censurado por uma foto contra a
homofobia, Wilheim Rodrigues ficou intrigado com o controle de conteúdo do
Facebook. O estudante de Jornalismo da USP levou seus questionamentos a sério e
decidiu focar seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) nesse tema.
Para Wilheim, a rede social possui
extrema relevância, já que tem mais de 1 bilhão de usuários, sendo que 76
milhões destes são brasileiros. Isso significa que 1 a cada 3 pessoas no Brasil
estão conectadas ao Facebook.
Através de pesquisa, registro e
catalogação de casos de censura, ele concluiu o trabalho “FACEBOOK: Casos de
censura no Brasil”. O estudante defendeu que a rede social não segue documentos
como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição da República
Federativa do Brasil, mesmo atuando com força no país.
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| Essas imagens são consideradas pornográficas pelo Facebook (Reprodução) |
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| Essas imagens não são consideradas pornográficas pelo Facebook (Reprodução) |
Fórum
– Algum caso específico te motivou a fazer o TCC?
Wilheim
Rodrigues – Sim, um
amigo foi censurado por uma foto na qual havia uma mensagem contra a homofobia.
Naquele momento, me dei conta de que existia controle de conteúdo no Facebook.
Até então, a ideia não havia passado por minha cabeça. E, se meu amigo que não
era ativista teve conteúdo censurado, como deveria ser a remoção em perfis de
pessoas que lutavam cotidianamente a favor de minorias e publicavam conteúdo
anti status quo toda hora? Quem era responsável pelo julgamento do que era
adequado ou não e deveria se dar o processo? A partir daí decidi que o tema
seria minha tese de TCC.
Fórum
– Você percebeu um padrão nas censuras do Facebook?
Wilheim - Infelizmente, falar sobre padrão de
censura a partir de minha pesquisa é complicado. Por ser um trabalho de ordem
qualitativa (no qual o conteúdo é o centro do estudo) e não quantitativa (em
que o número de ocorrências do fenômeno é o ponto mais importante), posso
apenas apontar tendências encontradas nos poucos casos analisados. De qualquer
forma, entre os casos que encontrei, registrei e cataloguei, há uma
predominância de remoção de conteúdo que apresenta conteúdo não conservador.
Fórum
– Acha que essa é uma questão política?
Wilheim - Considero que há motivação política
nas censuras efetuadas pelo Facebook, mas não no sentido de política
partidária. A motivação a que me refiro, aqui, está centrada em uma definição
de política enquanto escolha pautada por valores a favor de um grupo social
específico. Fundamentando-se nos resultados que alcancei em minha pesquisa,
pode-se observar que as retiradas de conteúdo seguem uma lógica de princípios conservadores,
patriarcais e contra minorias que contestam padrões sociais estabelecidos.
Logo, favorecem a uma determinada parcela da população em detrimento de outra,
portanto as considero de ordem política.
Fórum
– O Facebook é conservador?
Wilheim - Não tenho fundamentação teórica nem
prática para dizer se o Facebook é uma empresa conservadora ou liberal,
tampouco teria vontade de fazê-lo. O que posso, sim, é defender que é preciso
equilibrar um pouco a visão de ambiente totalmente democrático que vem se
formando com relação à rede social em questão. Existem políticas e ações da
instituição que podem ser contestadas por apresentarem características não
democráticas e devemos estar atentos para essas outras características do
Facebook, entre elas suas definições de pornografia e nudez, seus processos de
denúncia e sua quase nula interação com os usuários na formulação de diretrizes
para a Declaração
dedireitos e responsabilidades e para os Padrões da comunidade do
Facebook.
Fórum
– Há pouco mais de um mês, o Facebook anunciou que passa a permitir fotos de
mães amamentando. O que acha dessa “conquista”? Foi uma reivindicação feminista?
Wilheim - Concordo com você ao definir, já em
sua pergunta, que tal ação foi uma conquista. Conquista de um movimento
iniciado, no Facebook, em 2008 com o grupo “Hey, Facebook, amamentação não é
obsceno!”, cujos registros permanecem ainda hoje neste link:
http://www.tera.ca/photos6.html. Foi sim uma reivindicação feminista no sentido
de dar à mulher autonomia de expor o próprio seio durante a amamentação sem ser
censurada pela conduta machista do homem que considera tal exposição erótica e,
portanto, imoral segundo valores patriarcais. Ou seja, é um direito da mulher
sobre o domínio do próprio corpo. E tal cenário se configura mesmo que,
inicialmente, as mães do movimento não tivessem em mente tal preceito ao lutar
pela mudança nas normas da rede social.
Fonte: Revista Fórum
Para baixar o trabalho (TCC) em PDF na íntegra, clique aqui.


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