Não tem para onde fugir. A
maconha não quer sair de pauta. Os grupos defensores da legalização - liberação, regulamentação, descriminalização... - vem pautando a mídia e a
mídia vem pautando a sociedade em geral. De qualquer forma, um passo decisivo já foi dado: a maconha estar em pauta. A discussão agora é inevitável. E não são mais cinco ou quinze minutos de fama. O resultado é a exigência da sociedade civil de posições institucionais, além da posição oficial (estatal). A seguir, mais duas curiosidades dos últimos dias sobre a maconha, inclusive uma receita da culinária cannabis. Não deixe de ler! Algumas postagens anteriores a esta também abordam o tema - Do autor (Kayc Pereira).
Título original: Sinal verde suspeito
As temperaturas no hemisfério norte
não estão tão altas assim mas muitos milaneses acharam que estavam tendo visões
ao atravessar algumas ruas na zona sudoeste da cidade. Uma folha de maconha
verdinha lampejava quando o semáforo indicava que era hora dos pedestres
passar.
Alucinação? Não! Provavelmente
uma brincadeira de algum militante pró-cannabis que engenhosamente colocou um
adesivo da erva no sinal que imediatamente virou sensação nas redes sociais. No
começo do ano, Barcelona, na Espanha, também foi invadida pelas folhinhas. A prefeitura
de Milão acredita que a "moda" já tenha se estendido por outras ruas
da cidade. É o que se pode chamar de sinal proibido!
Fonte: Ela
Título original: Maconha
na mesa
Michael
Bothager
|
Foi
num dia qualquer 16 anos atrás que Jessica Catalano, então uma menina, bem
antes de sua torta de limão com manteiga de maconha (da variedade Lemon Kush)
ganhar as páginas de um livro, provou Cannabis pela primeira vez. E que bela
surpresa! O baseado, fumado na casa de uma amiga, aliviou a enxaqueca que a
perseguia havia anos, logo substituindo as pílulas e seus efeitos colaterais.
Só não passou pela cabeça da garota comer o remédio – não antes de sentir o
aroma peculiar vindo daquela cozinha meses depois: a mãe da amiga fazia
brownies “batizados”, que se mostrariam deliciosos ( e eficientes). “Fiquei
curiosa”, lembra a ativista. Por que não comer em vez de fumar? A dieta
evitaria o cheiro e a tosse e a ação analgésica seria a mesma. Começava sua era
de brownies “canábicos”.
Em
2007, Catalano mudou-se para o Colorado da erva legalizada. “Foi a maior bênção
da minha vida.” E passou a pesquisar variedades de maconha e seus métodos de
extração, sabores e aromas. Geneticamente trabalhada, a erva dá origem a cepas
com nomes que refletem a vocação: Chocolate Chunk, Grape Sorbet, Mango Kush,
Mother of Berries, Lime Haze... Experimentando, ela aprendeu o que agradava
tanto à cabeça quanto ao estômago. E decidiu dividir sua expertise abraçando a
nova tendência do mercado editorial americano. The Ganja Kitchen Revolution
está à venda na Amazon, com dezenas de outras publicações voltadas para a
“culinária canábica”, que já ganham as livrarias em volumes específicos:
assados, sobremesas, bebidas.
Sites também se multiplicam. O thecannabischef.com traz um tutorial para fabricar cada ingrediente – leite, farinha (de folhas e flores), manteiga, óleo, tintura –, e receitas. “Eu e meu amigo sempre gostamos de maconha, internet e culinária. Combine os três ingredientes e temos uma página de gastronomia canábica”, diz o holandês Peter Notermans. Apesar de liberal com a maconha, a Holanda não oferece muito mais que cookies e bolinhos para turistas, lamenta. Canadá e Espanha estão à frente, com blogs e festas privadas com o ingrediente de estrela. E tem a Dinamarca do chef Claus Henriksen.
“Foi um velho fornecedor quem me trouxe, dizendo que eu devia experimentar o sabor de nozes fantástico”, diz Henriksen. O senhor calha de ser Søren Wiuff, produtor de ervas do Noma, melhor restaurante do mundo. Henriksen já preparou linguiças recheadas com folhas de maconha e queijo defumado com a erva e recheado com purê de sementes, além de bolos e mousses. “Tenho feito um guisado de maconha com mariscos que é uma delícia.”
Mas são os EUA a meca da gastronomia canábica. São 23 os estados que aprovaram o uso, dois deles, recreativo, o que catapultou a demanda. “Com a busca por sabores refinados, as pessoas se abrem à ideia de que é possível consumir maconha elegantemente”, diz Catalano. Assim, bem além dos cookies adolescentes feitos com qualquer erva, as receitas de chefs usam variedades específicas. O segredo está nos terpenos, compostos contidos nos tricomas, cristais que emergem nas flores e conferem seu aroma específico, quais óleos essenciais que dão personalidade a cada variedade. “A ideia é combinar o sabor de cada tipo de erva com ingredientes análogos ou complementares. Por exemplo, a Lemon Kush casa com rolinhos vietnamitas, realçando, com seu sabor cítrico e mentolado, as ervas do prato. Uma Strawberry Cough, com notas de morangos e creme, fica ideal numa torta da fruta.”
E fica bom, garante o repórter Jesse Pearson, da GQ. Junto do crítico de gastronomia do New York Times, ele foi convidado para um jantar temático no Blanca, dos donos do aclamado bistrô Roberta, em Nova York. Ali, chefs serviram salada verde com laranja e crótons de maconha, pizzas ao pesto da erva e peixe marinado no óleo e no kief (cristais condensados de THC) com molho de iogurte. “O sabor era defumado, exótico, ficou perfeito com a oleosidade do peixe, suavizando-o com notas herbais”, escreveu, já bem chapado. Cada mordida tinha gosto de maconha, disse – e era exatamente esse o ingrediente principal que harmonizava a composição.
Como cada maconha tem seu terpeno, o gosto muda. “E como eles são encontrados em várias plantas, é comum que uma maconha lembre uva, outra limão etc.”, explica Elise McDonough, colunista de gastronomia do High Times. E há a diferença do método de extração dos óleos essenciais. “O haxixe dá um sabor mais terroso, as flores, mais herbal.” E eles podem ser infundidos em qualquer lipídio: manteiga, óleo, lardo, leite. “Fiz até maionese de maconha!”, comemora. Além do aroma e do sabor, cada tipo guarda graus diversos de THC, a substância alucinógena. “Assim, esse estilo culinário não só ajuda os pacientes a entender a importância do sabor para enriquecer sua experiência, mas também mostra como cada variedade afeta o corpo”, diz Catalano. É como se uma relação afetiva surgisse do sabor de cada tipo de maconha, numa experiência quase proustiana.
Se esse saboroso admirável mundo novo ganha força em terras austrais na esteira da legalização, em países onde a maconha é criminalizada, como no Brasil, o cenário é mais insípido. O produto, repleto de aditivos, tem má qualidade e está a anos luz de oferecer nuances de sabor e aroma. Uma pena para quem pretende mitigar as dores do corpo e da alma com as milenares propriedades da erva. Mas o mundo parece começar a se preocupar com coisas mais sérias. “Eu ainda sonho poder ver um dia comestíveis vendidos em restaurantes de maconha, padarias e bistrôs”, reflete Catalano. “Com tantos ingredientes e tantas variedades, o céu é o limite.”
Abaixo,
uma receita de pene ao pesto medicinal de maconha. A receita é adaptada da
revista High Times
Ingredientes:
1/2
xícara de flores de maconha de boa qualidade*
1
xícara de azeite de oliva extra-virgem
1
pitada de sal marinho (ou a gosto)
2
dentes de alho
2
xícaras de folhas de manjericão (baby)
½
xícara de queijo parmesão
½
xícara de pinoles ou castanhas*
Pene
Preparo:
Aqueça
água em uma panela e posicione uma cumbuca de vidro sobre a água (de
preferência sem tocá-la, deixando apenas o vapor agir); coloque a maconha e o
óleo na cumbuca e espera de quarto a oito horas (quanto mais, melhor); não
deixe o azeite ferver;
Coe
o óleo com uma peneira fina e espere esfriar;
Amasse
o alho, o sal, o manjericão e o queijo num almofariz ou bata num processador,
adicionando o óleo preparado aos poucos
Cozinhe
o pene em água e sal segundo as diretrizes do produto, escorra e misture ao
molho à vontade
*
a receita da High Times não leva nenhum tipo de castanha, mas como
tradicionalmente o pesto alla genovese usa pinoles, decidimos adaptar, sugestão
dos chefs do www.thecannabischef.com.
*
o efeito psicoativo (e medicinal) dependerá da variedade de maconha, por isso é
bom comer com moderação; e vale lembrar que a maconha é uma erva proibida no
Brasil
Fonte: Carta Capital

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